sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Entrevista com Renato Marsiglia

Aqui está a reportagem que deveria sair no site da Copa Campus durante esta semana.
Por Carolina Drago e Lucas C. Silva

A arbitragem e seus desafios voltam a ser assunto da Copa. Agora, ultrapassando os gramados do Colégio Batista, em direção aos estádios do mundo. E quem nos ajuda a compreender melhor essa realidade, tão polêmica quanto envolvente, é Renato Marsiglia, ex-árbitro – FIFA de futebol e, como jornalista esportivo, atual comentarista da Rede Globo.
Em uma entrevista rica em experiências, conteúdo e simpatia, Renato esclarece dúvidas sobre sua carreira, comenta sobre a tecnologia nos gramados, opina sobre a polêmica profissionalização da arbitragem, fala sobre esporte universitário, Copa do Mundo e ainda presenteia a nossa equipe com uma mensagem de incentivo e a experiência de quem já viveu.


- Você foi árbitro de basquete nos anos 70 e 80. Como foi sua passagem para o futebol?
- Em primeiro lugar, é um prazer enorme estar falando com vocês. Comecei como jogador de basquete nos anos 60, mas parei por causa da faculdade de Economia. Então me tornei árbitro internacional de basquete. Quando eu estava nos Jogos Pan-Americanos de 1979, em San Juan, Porto Rico, José Roberto Wright, que viria a se tornar meu colega de trabalho na Globo, me convenceu a fazer o curso de arbitragem. Me tornei árbitro de futebol em 1980 e minha carreira se estendeu até 1994, quando apitei na Copa do Mundo dos Estados Unidos.

- Como foi essa transição da arbitragem para o jornalismo esportivo?
- No início foi difícil. Apesar de já estar acostumado a dar entrevistas, é diferente de ser comentarista. Eu não tinha base acadêmica para o jornalismo e só fui fazer a faculdade após estar trabalhando 4 anos na RBS (afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul), onde trabalhei até 2004. Desde 2000 eu vinha dividindo meu tempo entre RBS e Globo. Sofri uma certa rejeição por não ser jornalista, mas aos poucos o gelo foi quebrando e fui dando seqüência à minha carreira de comentarista sem problemas.

- Qual é a vantagem que o comentarista tem sobre o árbitro? E o que você prefere fazer, apitar ou comentar?
- Não dá para comparar apitar e comentar. Foram atividades distintas e momentos distintos da minha carreira, de que tenho muito orgulho. Encerrei meu ciclo na arbitragem quando apitei a Copa do Mundo, 3 anos antes do limite para me aposentar. Hoje gosto muito do que faço como comentarista. É evidente que comentar é mais fácil, até porque temos replay, tira-teima, não temos a pressão dos jogadores e técnicos e as ofensas dos torcedores. Agora, o que eu prefiro? Quando apitava, preferia apitar, agora que comento, prefiro comentar.

- Como foi apitar a Copa do Mundo e que lembranças você traz dela?
- São lembranças maravilhosas. A Copa do Mundo é uma competição de altíssimo nível, com uma estrutura extraordinária para árbitros, seleções e jogadores. Tudo funciona como um relógio suíço, que é onde fica a sede da FIFA (risos). É o ponto máximo da carreira do árbitro e do jogador. Bilhões de pessoas estão vendo seu trabalho, é um momento mágico.

- Qual é sua opinião sobre a profissionalização da arbitragem?
- A profissionalização é fundamental para o crescimento da arbitragem e, conseqüentemente, para a diminuição dos erros. Hoje, o árbitro é um amador no meio de profissionais. Ele recebe apenas quando apita, por isso vive numa preocupação constante, já que não pode ficar doente, ou se lesionar. Um árbitro FIFA, que fica um mês afastado, perde pelo menos 10, 12 mil reais. Como vai sustentar sua família? Eu mesmo já apitei GreNal decisivo com quarenta graus de febre. Tomei uma injeção uma hora antes do jogo e entrei em campo, já que não podia abrir mão da taxa de arbitragem. O árbitro acaba fazendo esses sacrifícios que podem estragar o espetáculo, mas pode-se condená-lo por isso? Na Inglaterra, a Premier League paga salário e mais um adicional por partida que ele apita. Se não puder atuar, o árbitro e sua família estarão assegurados.

- Como a tecnologia pode ajudar a arbitragem atualmente e no futuro?
- Hoje a tecnologia trabalha contra o árbitro, sendo mais um fator de pressão. Os árbitros de hoje são mais qualificados que os da minha época, do Arnaldo César Coelho ou do Armando Marques. O que acontece é que na nossa época não existiam os recursos eletrônicos que existem hoje. Mesmo os árbitros errando menos hoje, seus erros possuem uma visibilidade muito maior que há 15, 20 anos. Não vejo, a curto prazo, como esses recursos podem ajudar a arbitragem, até porque é contra a cultura do futebol ficar parando toda hora para analisar cada lance. A tecnologia pode ajudar o árbitro em seu preparo, isso se ele tiver o profissionalismo e a humildade necessários para, ao terminar uma partida, ir para frente do videotape e analisar sua atuação.

- E quanto aos jogadores que reclamam da arbitragem no fim do jogo, o que você acha de sua punição?
- Se o jogador, dirigente ou técnico declarar o que bem entender ao final de uma partida, imagine no que o futebol vai se transformar. O que eles dizem vai para a mídia, vai para o ouvido do torcedor que processa essa informação com emoção. O torcedor não é racional, ele é torcedor, torce, distorce. Só vê o lado que lhe interessa. Como é que ele vai processar essa reclamação que escuta um técnico, jogador ou dirigente dizer? E se o jogador pode dizer essas coisas, o árbitro vai se sentir no direito de ir ao microfone e sair ofendendo o jogador. Tem que haver um limite até em respeito à honra das pessoas. O Código Brasileiro de Justiça Desportiva atende a jogador, técnico, dirigente e árbitro. Todos estão sujeitos à lei.

- O que você acha do esporte universitário?
- Por uma questão de experiência familiar, acho que a universidade deveria oferecer um papel muito importante dentro do esporte. Tenho um filho, Guilherme, de 20 anos, numa universidade americana, a Universidade Drake, no estado de Iowa. Ele foi pra lá como tenista. Lá, os atletas são formados pela universidade. Aqui é diferente, é via clube, academia. As universidades não possuem os recursos daquelas dos EUA, que são mantidas por fundações, doações de empresas e pessoas físicas. O Estado brasileiro deveria incentivar o esporte via sistema escolar. Sem contar o que o esporte ensina para a vida, com educação, disciplina, respeito à hierarquia, ao companheiro. O papel do estudo na formação através do esporte é fundamental; pena que no Brasil não funciona assim.

- Quais são os melhores e piores estádios do Brasil para se apitar?
- Na Série A, prefiro repetir o que os jogadores disseram. Fizeram uma pesquisa com os capitães das 20 equipes da Série A perguntando quais eram os melhores e os piores gramados para se jogar e apontaram o Beira Rio, em Porto Alegre, como o melhor, e Aflitos e Ilha do Retiro, ambos em Recife, como os piores. Há estádios absolutamente confortáveis, como Maracanã, Morumbi, Mineirão, Serra Dourada, Olímpico e aqueles mais acanhados. Para evitar ser preconceituoso, fico com a opinião dos jogadores.

- E quais são suas expectativas para a Copa do Mundo de 2014?
- É utopia imaginar que a Copa do Mundo do Brasil será quase perfeita, como a da Alemanha. Em questão de economia, organização e outros aspectos, a Alemanha está acima da Europa. Os alemães trabalharam de uma forma perfeita em 2006, pensaram em todas as alternativas e soluções para os problemas, fazendo uma Copa acima de todas as expectativas. Nós não temos como fazer uma Copa assim, apesar de eu não estar dizendo que nossa Copa será ruim. Pela extensão do Brasil, as viagens deverão ser feitas de avião. Mas os aeroportos estão com problemas. Os acessos aos estádios são complicados. O que fazer? Alargar as ruas que vão para o Maracanã? Não dá, pessoas moram ao redor das vias. Deve-se usar o que se tem. Deve haver criatividade para pensar no acesso aos estádios, para que as pessoas cheguem de uma forma segura. E o país pode ganhar com a Copa em matéria de organização. Vai ser uma Copa com a cara do Brasil, e não com a cara de Alemanha.

- Você tem alguma mensagem para os estudantes da UFRJ?
- Desejo sucesso a todos os estudantes de Comunicação da Universidade Federal, que escolheram essa difícil profissão e que vai exigir de todos uma grande dedicação e capacidade criativa, acima de tudo. E se posso dizer uma coisa a vocês, alunos de Comunicação, eu que também sou formado em Jornalismo em Porto Alegre, é que leiam. O jovem de hoje não tem esse hábito, mas é muito importante que vocês adquiram a cultura da leitura. Leiam de tudo, sobre tudo. Ninguém entra numa faculdade pensando que vai ser jornalista esportivo, comentarista político. A vida dá muitas voltas.

2 comentários:

Wander Veroni disse...

Oi, Lucas!

A entrevista ficou muito boa, cara. Também concordo com ele que o Brasil precisa melhorar muita coisa para a Copa do Mundo...espero que pelo menos 60% dessa meta seja alcançada para fazermos um bonito evento.

Abraço,

=]
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Dr. Sam Bruce disse...

A entrevista está mesmo muito boa.

e para ter uma copa do mundo aqui,temos que melhorar muito,muito mesmo....